quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Morri a ouvir poesia


Eu morria e a minha neta lia as palavras que eu havia escrito em vida.
Eu morria e a minha neta contava-me as minhas histórias.
E ela não sabia a felicidade que me proporcionava naqueles momentos tão agoniantes. Eu estava a morrer e estava a morrer feliz! A minha neta estava a ler-me e estava a ler-me feliz! 
Eu tinha uma vontade inexplicável de lhe agradecer e dizer o quanto era bom morrer a ouvir poesia, mas as minhas forças não o permitiam. Não sei que expressão tinha em meu semblante... se caracterizava o meu estado de espírito maravilhado ou se transparecia as dores do meu corpo já velho e gasto. 
Não conseguia falar, nem mexer as mãos para agarrar as dela. Queria tanto oferecer-lhe um último sorriso e espantar as lágrimas que lhe choviam dos olhos, numa tempestade incontrolável e num desespero mudo! A sua voz tremia ao som da melodia de prosa e poesia molhadas de água pura. As suas mãos vacilavam, jovens, incertas e cheias de dúvidas para com a vida. O seu rosto, tão belo como o da sua mãe, brilhava num tom natural de quem tem coração de ouro! 
Os meus olhos seguiam-na, incansáveis e já nostálgicos, com medo de a perder! 
Percebi que eu não a estava a perder... ela é que me perdia a mim!

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