quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ter que ter


Ter que ter. Ter que ter força, coragem. Principalmente uns grandes pulmões, porque se vai precisar de respirar fundo para não explodir milhares de vezes. É o ar fresco que se vai ter de conseguir engolir para desfazer aquele nó que há na garganta. É a respiração que se vai ter de controlar quando se estiver prestes a cair. São as lágrimas que se vão ter de esconder lá bem no fundo para conseguir fazer parecer tudo tão bonito com aquele sorriso perfeito. As saudações simpáticas. As vozes interiores caladas no mundo e insuportáveis na cabeça.
Temos que fazer aquele esforço de não nos queixarmos porque estamos cansados, chateados, deprimidos, tristes, sem razões para continuar... Temos de fazê-lo pelos outros.Temos de fazer de conta que tudo corre bem e agir como se tudo estivesse bem. Temos de ir à escola, às aulas, e, nesta altura do campeonato, se não ouvirmos o que se diz, pelo menos tentar fazer parecer que se ouve alguma coisa e que fica tudo muito bem estruturado nos apontamentos do caderno. Fantástico.
Os exames são aqueles papéis que todos adoramos e veneramos. Adoramos a escola, os nossos resultados e o facto de termos de decidir o nosso futuro neste mês deixa-nos super felizes. Estou a ficar sem carga irónica. Já não sei que mais sarcasmos posso tirar disto tudo... são tantos que não os consigo contar.
 Digo que sim, que é giro, que mal posso esperar para ir para a Universidade, que tenho boas expectativas do que possa acontecer, que hei-de gostar, mais tarde ou mais cedo, do curso que pretendo tirar... Também digo que não quero pensar muito antes dos exames porque nunca se sabe o que pode acontecer, que só o tempo dirá. E respondem que faço bem, que devo continuar determinada, manter a calma durante os exames, que tudo se resolverá, que hei-de obter bons resultados e que conseguirei entrar logo na primeira opção.
Se acredito no que digo? Jamais. Mas digo-lhes aquilo que querem ouvir!
Se acredito no que dizem? Não sei. Já nem consigo ouvir o que dizem, pelo menos nestes últimos dois dias. Já só vejo livros, números, letras, livros outra vez, lua, sol, chuva, nuvens, escola, livros, livros, números, papel, papel, papel. Já só cheiro café, água, água, água, café, leite, cama, banho, café, café. Já só ouço eu, a minha cabeça, o relógio, o despertador, o duche, toque para entrar, toque para sair, passe de autocarro, chave na porta de casa, quarto a encher-se de eu e de mim, teorias, teoremas, informações adicionais para os exames nacionais, vozes de fundo em salas de aula que falam de tudo e de nada, obras que me chateiam a paciência, alterações de programas pelo Ministério que não lembram ao diabo...
Já deveria saber quem sou.
Parabéns, rapariga alguém! Não consegues definir a tua pessoa. Como conseguirás definir a tua vida?

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