quinta-feira, 1 de maio de 2014

Rotina


Já não tenho chuva dentro de mim, nem nuvens no meu céu...
Já não existe vento nas gaiolas do meu peito, nem brisa no silêncio dos meus olhos.
Entre a noite que é cega e a madrugada que é surda, tento agarrar palavras para o dia.
Entre a lua pálida e morta e as estrelas esmorecidas no céu, tento guardar alguma poeira galáctica que me ajude a voar durante a escuridão do sono.
Já não há vida para além da temporalidade do papel. Mas eu continuo aqui. A existir.
Faltam-me as pérolas do mar para poder pensar; faltam-me as borboletas de aguarela para conseguir respirar. Falta-me o tempo... falta-me a vida!
E lá fora, o senhor do café continua igual, a senhora da papelaria também, o chão da calçada mais gasto por passos impensáveis, as árvores das ruas mais sábias e as coisas esquecidas ainda mais esquecidas. As rosas dos jardins vivos da vila choram ao sol e imploram por sangue de vida, seiva vermelha que lhes corre nas pétalas escarlate que se desenrolam do botão cheio de pó do paraíso.
O jornal diário continua a ser renovado nas mesas do café do senhor Zé; as revistas do quiosque da dona Madalena seguem o mesmo caminho; as violetas do canteiro da tia Ana fazem-na olhar para trás, para o que passou e que já não volta e impedem-na de olhar para o futuro, para o que lá vem ou há de vir.

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