terça-feira, 11 de março de 2014

Clandestino


Noite escura. Sem luz. Estava frio seco e vento cortante e o pobre homem vagueava, claudicando como um moribundo no fim do tempo de vida. Agasalhado com roupas que não eram suas, tremia os dentes fracos e esfregava ambas as mãos nos braços (como se se abraçasse a si mesmo) com uma velocidade estonteante. A sua respiração era inconstante e acompanhada de um ruído desagradável da tosse causada pelo gelo que inspirava. Os seus cabelos, secos e maltratados, lutavam entre si. Os seus olhos mendigos, perdidos, já sem brilho e sem cor, procuravam na escuridão um fio de luz transparente. Os lábios gretados daquela boca, quase em sangue, tinham uma história de quase meio século para contar. Mas ninguém o ouvia. Ninguém excepto ele e as estrelas mais próximas. A Lua, essa, tinha virado as costas à Terra.
Deitou-se em cima de qualquer coisa imperceptível e desejou morrer. Mas nem todos os desejos se realizam...
Aguentou um pouco mais e adormeceu.
Manhã incandescente, cheia de luz branca e clara que magoa os olhos desprevenidos que acordam serenamente. A escuridão abandonou-o por fim. No entanto, o frio veio para ficar. Para ele, não havia nada mais desagradável do que sentir a sensibilidade a desaparecer. Até a fome se aguentava melhor - aquelas dores de estômago insuportáveis que, mesmo depois de comer, continuam a torturar o ser enfermo, parecendo não haver fim.
Poisou as mão sujas no chão duro e real para se apoiar e empurrou o solo, na tentativa de que algo inesperado acontecesse. «O quê?» perguntava ele, sem nada e com tudo no pensamento, vezes sem conta, com fé de que alguma resposta pudesse surgir, por obra divina do Espírito Santo ou não, por magia inexistente e imaginária dos astros ou ainda pela sua própria força, já fraca de tanto esforço!
Levantou-se e esperou pelo que esperava nos últimos dias... alguma coisa que não fosse nada e que fosse coisa suficiente e não em demasia. Vá-se lá perceber!

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