domingo, 23 de março de 2014

Abismo


Perdi-te. Tiraram-te de mim. Depois morri.
Quis ser sol nos teus dias cinzentos, ser água nos secos. Quis beijar as nuvens de teu semblante infinito e abraçar o teu coração.
E fui sol nos teus dias cinzentos, água nos secos. E beijei as nuvens de teu semblante infinito e abracei o teu coração.
Não foi suficiente. Porque te perdi demasiado cedo! Deveria fazer-te tudo aquilo e muito mais, pelas estações vindouras, pelos tempos que passaríamos juntos... Tudo o que te quis dar, tudo o que te quis ser. Tudo ficou incompleto como uma obra inacabada. As mãos do Universo não foram cuidadosas contigo. Os seus dedos não pintaram a nossa vida devidamente. E revendo a tua história, pergunto porquê! Porquê alguém que faz tão bem ao mundo?
E zanguei-me. Zanguei-me com os pincéis do cosmos, por não terem retirado tinta suficiente para a tua tela! Nada tenho contra a variedade de cores. O que fez de facto falta foi mais tinta.
A felicidade que me proporcionas é indescritível. As memórias que de ti ficaram guardo com o meu coração e quando as recordo é como se voltasses para mim. Depois, quando caio na realidade, uma melancolia, uma angústia, uma nostalgia intensa como o negro e o vermelho do Inferno invadem-me o coração.E é uma dor tão grande, tão grande!
Gritei, blasfemei, esperneei, chorei, acabei com o mundo à minha volta quando te vi fechar os olhos, amor! Os olhos que não voltaria a ver, o rosto alegre e corado que naquele momento perdeu a cor e a garra pela vida, meu filho! Os lábios encarnados que beijavam as bochechas da tua mãe, querido! Perderam a cor. Perderam a vida. Os teus cabelos castanhos como os do teu pai e encaracolados como os meus, tua mãe, que costumavam esvoaçar ao vento cheios de força, caíam agora pela tua face, fracos e mais escuros. O teu sorriso inocente e puro, a tua bondade de coração igual à do teu pai eram o meu orgulho. Os meus dois homens. Os da minha vida. E perdi-te.
A revolta instalou-se. O pânico ajudou ao meu estado completo de desespero. Ter-te nos meus braços, sem poder ordenar ao tempo que voltasse atrás. Tiraram-te de mim. Roubaram-te a vida, filho! E eu não pude fazer nada. Prenderam-me e deixaram-me ver-te ali, no chão duro e gélido, sem amparo, só!
Como descrever a tua morte? Quando ouvi o seu som fiquei imediatamente surda. Não ouvi mais nada, nem os gritos horrorizados que dei. Só consegui sentir o teu corpo cair morto, sem cor, sem ti. Revejo-o vezes sem conta e agarro-me ao teu pai, a chorar, quase morta também. Ele abraça-me com a sua força e bondade e chora comigo. Ainda estás connosco, filho. Nunca desaparecerás. Afinal, foste o fruto do nosso amor. E este, é imortal!

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