terça-feira, 11 de março de 2014

A senhora do chapéu de chuva


Chove torrencialmente e é Inverno. Os trovões estridentes rebentam na escuridão, largando luzes, fortes clarões que iluminam a noite por momentos. Ouve-se o cair das gotas grossas, potentes e unicamente brilhantes na estrada, com força, cheias de força, que parecem arrancar pedaços do chão. Chove torrencialmente e é Inverno.
Tenho de ir para a estação. Mas está a chover intensamente... Uma senhora chegou. Disse-me «Boa noite!» e também que me levava à estação. Aceitei. Não abri a boca durante a pequena viagem e a palavra que me ocorreu instantaneamente foi o comum «Obrigado!». Olhou-me nos olhos e reconheci-lhe o brilho do olhar, a voz ternurenta que se deixava sair entrava-me no coração como a essência única e indescritível de recordações da infância. Aquela bondade inconfundível...
Como pude quase esquecer-me de como era?
Como?
Chove torrencialmente e é Inverno.
A ausência das pessoas durante um determinado tempo faz-nos ver as coisas menos nítidas; é como se o tempo fosse nevoeiro... Temos tanta saudade, tanta vontade de sorrir, de ser feliz! Tanta ânsia de viver que acabamos por distorcer as verdadeiras imagens.
Entro agora no autocarro totalmente impressionada...
Chove torrencialmente e é Inverno.

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