quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Coração de Mar


    Os seus olhos azuis e brilhantes cintilavam como duas pérolas no seu rosto velho, enrugado e queimado pelo sol. As suas mãos, tratadas como o rosto, pareciam chorar e gritar ao vento pelo repouso. Ele não as ouvia, tinha os ouvidos tapados por preocupações e previsões. A sua boca salgada deixava escapar no marulhar confuso das ondas cantigas perdidas no tempo e assobios de avô!
    Havia noites em que se deixava engolir pela boca do mundo, no seu barco «Ulisses», tendo lutas incontáveis com o maior monstro da Terra. Sempre disse que, se nasceu no Mar, haveria de lá morrer também. Acrescentava ainda (como gente sábia) que, apesar das longas, duras e negras batalhas travadas com ele, não deixaria de ser o seu melhor companheiro. Afinal, a sua vida tinha sido dedicada a tal natureza.
Passava crepúsculos e auroras, perdido na «intemporalidade» e na imensidão do Nada (ou do Tudo!), olhando para a linha que separa o céu do mar e para o sol e para a lua que chegavam a partilhar o céu amigavelmente. As restantes estrelas, essas, apareceriam mais tarde, quando o escuro da alma da noite decidisse aparecer.
    Depois, o trabalho! Trabalho árduo: lançar as redes. Esperar. Retirá-las mais pesadas do que aquando do seu lançamento. Separar o peixe… O odor horrendo do alimento saudável tinha-se agarrado de tal forma ao seu nariz que a sua presença lhe era já indiferente.
    Perguntei-lhe, depois destes minutos observadores, se não estava cansado. E ele, com marcas do tempo no rosto de variadas formas, respondeu-me que sim, que às vezes desejava adormecer no barco e acordar em lugar algum diferente.
    Homem triste este Coração de Mar!

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