segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Antes de o sol se pôr


    Os meus pés já não aguentam o chão que pisam. É duro, gélido e cheio de espinhos que me perfuram a carne até aos ossos. É escuro, cheio de vontade de matar, cheio de apetite por mortos, cheio de fome e sede de sangue.
    A vida não é como uma peça de teatro! Não há ensaios e não podemos «repetir a cena» para ver se é desta que corre bem. Corre mal e ponto final. Para quê tentar dar a volta? Para fazer da realidade um eufemismo tão grande ao ponto de nos fazer acreditar na beleza dos sonhos, no orgulho de aprender com os erros, na esperança estupidamente conseguida por um futuro melhor… ? Para quê viver se nos proíbem de sonhar? Para quê lutar se antes da batalha nos tiram as armas e somos declarados como derrotados miseráveis? Para quê tudo se acabamos nada? Não somos mais que um produto matemático com barro à mistura.
    Que se faça a vontade ao chão porque os meus pés, depois de tanto fraquejarem nestas amarguras das trevas, caminharam ainda neste pó aglomerado que faz terra e terra esta que faz chão. Porque os meus pés já não se aguentam de pé! Porque os meus pés perderam a força de caminhar e a firmeza de quem vive.
    O único motivo pelo qual eles se mantinham na sua função esvaeceu-se. Agora, posso afirmar convictamente que a minha vida acabou. Hoje foi o meu último dia. O fim do meu mundo. Mas, para aqueles que viverão, haverá amanhã. E para mim, esse futuro – o amanhã – já não existe.
    Sendo assim, que o chão seja saciado, pois meu ser morrerá ainda antes de o sol se pôr. A morte chegará aos meus ossos antes de a lua nascer.

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