segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

(A)Mar


   Dentro de mim, nas minhas profundezas, vivem mitos, lendas e outras histórias de fantasia! Em Invernos tenebrosos, as minhas ondas rebentam bruscamente devido ao turbilhão de emoções. No Verão, magnífica estação, os meus braços azuis, brancos e espumados banham um manto dourado, compassadamente, em praias cujo marulhar é de tal forma intenso que mesmo em corações de pedra é capaz de penetrar!
    Cá dentro, dentro de mim, há correntes tumultuosas que, muitas vezes, são difíceis de contornar. No entanto, há sempre alguém que consegue abrigar-me das minhas próprias tempestades. Alguém tão doce, tão único e tão bonito de alma!
    Quão perigoso é o mar de alguns! Tão áspero e gélido, capaz de arrepiar almas e enregelar corpos. E, para equilibrar esta realidade, há mares que mais se parecem com rios, tão calmos e serenos!
    O meu mar, aquele que está em mim, é diferente! Por vezes, sonho que nasci como Afrodite, da espuma do mar… após a rebentação de uma onda frágil, as pérolas brancas que dali surgiram, moldaram uma forma humana cheia de vontade de sentir, de amar e de viver. Ainda assim, sinto que algo não me deixa sentir a felicidade eterna: a Saudade. É isso que me impede de deixar o sol pôr-se sem nuvens! Tenho de olhar fixamente para a sua alma e tentar encontrar o seu mar, lá dentro, profundamente escondido. Intangível. Depois, dizer-lhe que é necessário haver mar dentro de cada um de nós para poder amar. E, por fim, pedir-lhe para ser feliz, porque é ao sentir a sua felicidade que nasce um sorriso no meu rosto!
    Dentro de mim há o mar… Dentro de mim há água, espuma, sangue e vida. Há um (a)mar nunca antes sentido.

Queimei o passado


    Rasguei em mil e três pedacinhos o que tinha escrito até então. Elaborei um puzzle com aquelas peças cheias de palavras de todos os tipos. Sentia-me tão presa a todos aqueles acontecimentos…  apercebi-me disso pela melancolia que me perseguia mais intensamente do que a minha própria sombra.
    Aproveitei um dia em que a lareira estava acesa. Agarrei em todo o meu passado escrito em prosa e lancei-o às chamas… que sensação estranha! Boa e má. Aquelas eram as minhas palavras! Senti o fogo ardente a queimar parte de mim… mais tarde percebi que o que de mim foi queimado não prestava. Parasitas e manchas negras foram destruídos pela quente fonte de luz.
    Senti, pela primeira vez, um desconforto reconfortante! Largara ali, como quem larga um monstro nas trevas, o eu que tinha sido no passado e o que tinha sonhado, sentido e vivido. Destruí-me para me poder conseguir (re)construir.

Quando eu morri


    Manhãs desoladas. Tardes contagiadas pelas manhãs. Dias assim.
    Decidi que, para estar como estava, mais valia fugir de mim, sair da minha cabeça por um tempo razoável e deixar-me. Deixar o meu ser. E consegui!
    Quando eu morri, vi os meus olhos a perderem o brilho que já não tinham. Ouvi a minha voz que já não falava. Respirei o suspiro inexistente e ouvi também o meu coração que já não batia. E, por mais estúpido que alguém possa ser, o que tinha acontecido era óbvio. Eu tinha morrido. Sem vida, sem nada – era eu; e aquilo era a Morte! Mas eu continuava a pensar e a ver-me. Estava deitada no chão da casa-de-banho. Era eu! No chão duro e frio. No gelo do desamparo e na dureza da vida morta. (…)
    Afinal, quantos de nós sabem o que é viver?

Antes de o sol se pôr


    Os meus pés já não aguentam o chão que pisam. É duro, gélido e cheio de espinhos que me perfuram a carne até aos ossos. É escuro, cheio de vontade de matar, cheio de apetite por mortos, cheio de fome e sede de sangue.
    A vida não é como uma peça de teatro! Não há ensaios e não podemos «repetir a cena» para ver se é desta que corre bem. Corre mal e ponto final. Para quê tentar dar a volta? Para fazer da realidade um eufemismo tão grande ao ponto de nos fazer acreditar na beleza dos sonhos, no orgulho de aprender com os erros, na esperança estupidamente conseguida por um futuro melhor… ? Para quê viver se nos proíbem de sonhar? Para quê lutar se antes da batalha nos tiram as armas e somos declarados como derrotados miseráveis? Para quê tudo se acabamos nada? Não somos mais que um produto matemático com barro à mistura.
    Que se faça a vontade ao chão porque os meus pés, depois de tanto fraquejarem nestas amarguras das trevas, caminharam ainda neste pó aglomerado que faz terra e terra esta que faz chão. Porque os meus pés já não se aguentam de pé! Porque os meus pés perderam a força de caminhar e a firmeza de quem vive.
    O único motivo pelo qual eles se mantinham na sua função esvaeceu-se. Agora, posso afirmar convictamente que a minha vida acabou. Hoje foi o meu último dia. O fim do meu mundo. Mas, para aqueles que viverão, haverá amanhã. E para mim, esse futuro – o amanhã – já não existe.
    Sendo assim, que o chão seja saciado, pois meu ser morrerá ainda antes de o sol se pôr. A morte chegará aos meus ossos antes de a lua nascer.

Avó


    Avó!
    Estou tão diferente. Sinto-me diferente daquilo que era, quando tu eras tu. Não sei se te lembras… Gostava que me visses agora, avó! Gostava que olhasses para mim, que visses os meus olhos, que admirasses o meu cabelo, como todas as avós fazem, e que me falasses (não me importa muito o que dirias, só o facto de ouvir a tua voz deixar-me-ia feliz.).
    Dói-me o peito. Seria uma pessoa muito melhor se ainda aqui estivesses. Aqui. Aqui!
    Eu queria chorar livremente, gritar para os pulmões do mundo a minha dor e chamar-te. Chamar-te Avó, a grande mulher da minha vida. Eu sei que me ajudas. Sou feliz porque me ajudaste a sê-lo! Sei, hoje, que me ouviste quando te pedi para me ouvires, quando não conseguia confiar em mais ninguém. E tu ouviste. E eu não sabia se me estavas a ouvir.
    Sabes a falta que fazes. Sabes que, naqueles dias, tenho uma vontade enorme de te visitar aí, onde estás, e já não voltar. Mas depois penso… e tu sabes que, para além de ser cobarde, tenho medo!
(…) 
    Queria tanto falar contigo. Mas não consigo ouvir a tua voz longinquamente perto. Não consigo ver já os teus olhos escuros que outrora foram claros. Não consigo imaginar o teu corpo sem ti, sem o teu eu. Sei que foi a partir daquele dia que fiquei com um enorme horror à palavra que me pediram para te dar e que eu recusei com as lágrimas que ainda me restavam! Era o Adeus! E eu não queria oferecer-te essa palavra tão feia, tão má! E não ofereci! Jamais diria algo assim a alguém tão importante para mim!
    Sabes, avó, nunca to disse (talvez até porque na altura não me apercebia claramente)… mas tu tinhas (e ainda deves ter) uma fé inabalável. Lembro-me do último dia em que te vi. Foi num dia cinzento, cinzento. Chovia e estava frio! Depois desse, já só em sonhos e pesadelos! Sonhos em que estavas connosco novamente a sermos felizes. Pesadelos em que revivia tudo novamente e em que acordava a chorar, numa aflição descontrolada, com medo de tudo, sem saber de nada!